Pular para o conteúdo principal

A relação entre qualidade de artigos, ensino e carreira científica



Posta do na Revista Eletrônica de Jornalismo Científico
Por Germana Barata
19/04/2010
O Brasil tem se destacado nos últimos anos com o crescimento da sua participação na produção científica mundial, hoje em 2,12%. Há dez anos, ela não passava de 1%. Atualmente, a maior preocupação é em relação à qualidade dessa produção, refletida tanto pelo baixo número de citações de artigos brasileiros quanto pelo maior volume de publicações em periódicos com baixo fator de impacto. No último dia 15, médicos, cientistas e editores de periódicos se reuniram no Instituto de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, durante o I Colóquio Brasileiro sobre Pesquisa e Publicações Científicas de Alto Impacto, para debater as principais razões que levam o país a ter uma performance científica aquém da desejada.
Embora um dos principais argumentos para a pouca penetração brasileira em periódicos considerados de alta qualidade seja normalmente atribuída às dificuldades na comunicação científica feita em inglês, essa parece ser a questão mais simples a ser solucionada. O problema, no caso brasileiro, é mais complexo. “Muitos erros conceituais estão sendo multiplicados nos periódicos de menor impacto”, afirmou Gilson Volpato, professor do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, que tem se dedicado a cursos para melhorar a redação científica. Erros que, segundo ele, se referem, sobretudo, à base empírica das pesquisas - argumentos que sustentem os dados, ou poucos dados para construir teorias, por exemplo -, ao excesso de informações e ao modo de se pensar o fazer científico. Sua análise aponta para falhas nos cursos de graduação, que deveriam ensinar as perguntas importantes para se pensar a ciência, ao invés de focar apenas no conteúdo.
“O importante no curso de biologia é saber dissecar um sapo. Fomos ensinados a ser técnicos, mas não cientistas”, concordou Márcia Triunfol, consultora para cientistas escreverem artigos para periódicos de alto impacto e doutora em biologia molecular pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Em sua fala, Triunfol reforçou que, além do país não ter tradição científica forte, há dificuldades que contribuem para tornar os cientistas menos competitivos. Entre elas a conhecida falta de agilidade para comprar e receber insumos necessários para os experimentos. “Dinheiro não é problema, mas sim como ele é distribuído, gerenciado”, afirmou, apontando que a dificuldade de planejamento no Brasil compromete o processo de inovação e descoberta. Diante de tantas dificuldades, os cientistas brasileiros, acredita a especialista, não se arriscam e preferem fazer pesquisas que são variações de estudos já existentes, além de não conseguirem realizar trabalhos experimentais completos, e assim, acabam publicando o trabalho em partes, em periódicos de menor impacto.
Mas as razões para a baixa qualidade da produção brasileira não param por aí. Martha Sorenson, do Departamento Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), investigou as razões que levam as pesquisas nacionais a conquistarem baixo impacto em relação à média mundial. Segundo ela, enquanto os artigos de física, uma das áreas de pesquisa de maior impacto internacional do país, recebem 14% menos citações do que a média internacional, a biologia e bioquímica estão atrás em 57%. Para entender essa discrepância, a bióloga comparou a qualidade da produção científica de cientistas brasileiros com os norte-americanos, ambos com indicadores de alto nível de produção. No caso nacional, todos os especialistas recebem bolsa produtividade em pesquisa níveis 1A ou 1B do CNPq, incluindo alguns membros da Academia Brasileira de Ciências, em várias áreas de atuação da bioquímica.
Comparativamente os brasileiros, embora publiquem em periódicos de alto impacto, recebem, em média, menos citações por artigo que os colegas norte-americanos. Isso ocorre, segundo ela, porque os cientistas brasileiros estão envolvidos em inúmeras atividades extra-pesquisa, consideradas altamente dispersivas, a saber: atividades que deveriam ser exercida por técnicos e secretários, grande número de orientação de graduandos e pós-graduandos, poucos pós-doutores, e a burocracia típica dos projetos que coordenam. Há também, afirma, baixa competitividade entre os brasileiros. “A estabilidade ocorre muito cedo na carreira dos professores e professores associados”. Todos esses fatores, segundo Márcia Triunfol, fazem com que os brasileiros se sintam intimidados. Muitas vezes, se produz pesquisas de qualidade, mas seus autores não se julgam capazes de ter um trabalho aceito em periódicos de alto impacto ou aceitam o parecer negativo de seu artigo passivamente.
Ao que tudo indica, para que o país se torne mais competitivo será preciso uma revisão no ensino e na prática científica no Brasil, de modo a fortalecer uma cultura científica entre os futuros cientistas. A 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, que ocorre em maio em Brasília, terá como desafio estabelecer estratégias de atuação para alavancar o impacto e a qualidade da ciência brasileira. Em 2008, o país formou cerca de 10.700 doutores, com planos de chegar a 16 mil neste ano.
Leia mais:
O que podemos aprender com editores de periódicos de alto impacto?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Renascimento do Parto 2 - PROMOCIONAL com parto pélvico - 2016

As primeiras palavras são fortes e esclarecedoras. As cenas falam por si! Lindíssimo!!! Emocionante! Cenas de parto!

Textos para trabalho e prova de Fisiologia

Bom dia, queridos alunos! Abaixo os links dos textos para o trabalho. Leiam. As questões envio hj a noite com a prova. Boa leitura! Dúvidas devem ser retiradas po email ou MSN e comentários são bem vindos. Abraços! O relaxamento respiratório no manejo do craving e dos sintomas de ansiedade em dependentes de crack OS EFEITOS DA ANSIEDADE NA APRENDIZAGEM E A PRÁTICA DO YOGA COMO RECURSO PSICOPEDAGÓGICO Prevalência e fatores associados à constipação intestinal: um estudo de base populacional em Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil, 2007     Prevalência da intolerância à lactose em função da faixa etária e do sexo.

Mesmo atrasado, lá vai!

Queridos alunos, leiam com a máxima atenção estes dois textos. O primeiro link é para o texto sobre a ação dos diuréticos . Leiam atentamente! Pensem na imensidão de questões que ainda precisam ser respondidas quando são considerados os fitoterápicos com ação diurética. O outro link é uma revisão sobre equilíbrio hidroelétrolítico (EHE) e equilíbrio ácido-base (EAB). Um texto mais completo, mas cheio de curiosidades a cerca de possíveis anomalias nas concentrações de eletrólitos em nosso corpo. Vocês vão adorar!